CRISTIANISMO: RELIGIÃO DE REFERÊNCIA OU UMA ENTRE AS DEMAIS?

A mesa de debates Teologia Pluralista e Teologia da Revelação reuniu os teólogos Andrés Torres Queiruga, da Universidade Santiago de Compostela, na Galícia, Espanha; o teólogo Faustino Teixeira, do Programa de Pós-Gradação em Ciências da Religião, da Universidade Federal de Juiz de Fora; e o teólogo José Maria Vigil, da Associação de Teólogos e Teólogas do Terceiro Mundo (ASETT), de El Salvador.

AUTOR: Antonio Carlos Ribeiro
Belo Horizonte, jueves, 15 de julio de 2010

O debate se insere no 23º Congresso Internacional da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter), realizado de 12 a 15 de julho na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), discutindo o tema Religiões e paz mundial.

Andrés Torres Queiruga desenvolveu a noção de pluralismo assimétrico que, mesmo sendo uma abstração, pode ser utilizada em relação ao outras religiões, mas sem se afastar do específico do Cristo para a tradição cristã. Admite que existem muitos pluralismos, mas há alguns com os quais ele tem dificuldades, como o dos ateus, embora respeite o discurso e se disponha a dialogar, mesmo sendo distinto do cristão. Por outro lado, não tem dificuldade de estabelecer contato com teólogos católicos e protestantes, desde que seja possível dialogar e crescer.

Ele admite o debate com o britânico John Hick, embora lembre que as grandes religiões pós-axiais, que incluem sistemas filosóficos como budismo, são voltadas para a pessoa humana e aprovadas no critério do que melhor responde à busca e situação no tempo. Observa que a religião que concebe a divindade em relação pessoal é de grande valor, mesmo quando tomada como modo de configurar parâmetros a partir dos quais dialogar.

Mostra proximidade com o teólogo Raimon Panikkar, vendo de forma diferente o mito da história e suas figurações distintas, e observa que ele pensa a história como tendo elementos novos que interferem na compreensão sobre o tempo passado e o divino. Enfatiza que o cristianismo tem possibilitado uma visão integral do conjunto, que possibilita o pluralismo assimétrico, quando compara o islamismo, o judaísmo, o hinduísmo; que a ressurreição é um modo cristão de configurar a experiência humana e lidar com a história; e que impulsiona um tipo de vida que dá continuidade à atitude amorosa de Deus, que dispõe as pessoas a escutar o que os outros têm a dizer.

Faustino Teixeira aprofundou a noção do pluralismo religioso, chamando-o de irrevogável e irredutível, e não sendo visto mais como estrutural e passageiro, mas reivindicando legitimidade e permanência.

A pluralidade dos dons de Deus é avalizada pela palavra mística de Ibn’ Arabi, de que “não é o sedento que busca a água, mas água que busca o sedento”. Colocou-se frontalmente contra a teologia do acabamento, que ainda é tida como marco teológico, evocou o documento de Puebla, lembrou que Adolphe Gesché chamou esse comportamento de “cristianismo não cristão”, parecendo uma eclesiologia restritiva que gera uma concepção missiológica aguerrida.

Essa perspectiva dialogal, enfatizou o teólogo, exige avanços para facultar às demais religiões o estatuto de genuinamente diferentes, mas autenticamente preciosas, como afirmou C. Geffré. O cristianismo necessita da diversidade para melhor explicitar os mistérios, viver o pluralismo como riqueza e acolher a contingência. O pluralismo se insere nos mistérios e desígnios de Deus.

Ao mesmo tempo, chamou a rejeição do cristianismo às demais religiões como “uma obsessão que pode ofuscar a realidade da pluralidade das religiões”. E lembrou a expressão de C. Duquoc, de que “não é verdade que haja um misterioso plano de Deus”.

“Deus é ponto inicial, unitário, um princípio deve ser buscado”, citou al-Hallaj, lembrando que para Ibin’ Arabi, “as tradições religiosas são caminhos duradouros para a busca”, orientando a “não cuidar de não te ligares a um credo pessoal, pois perderás um bem imenso”.

Deus é louvado em toda louvação. “Isso é a essência de toda a criação” e “estar animado por um coração receptivo, capaz de movimento, para hospedar diversas formas e atributos”, porque o ser humano desenvolve a capacidade da delicadeza. Para Rubi, “de todas as partes chegam os segredos de Deus, a presença universal do mistério”.

Ele evocou testemunhos de teólogos cristãos, como Mestre Eckart, e sua "metáfora da profundidade como caminho seguro para superar o medo”, “quanto mais a alma chega ao fundo do seu ser, mais a força divina nela se expressa plenamente”.

Paul Tillich e sua afirmação de que “o diálogo verdadeiro não se dá no abandono da tradição, mas no aprofundamento da tradição”, enfatizando que “na profundidade de toda religião viva há um ponto em que ele perde a importância e levanta o olhar para além de sua expressão de fé”. Thomas Merton, de que “serei melhor católico se afirmar a verdade do catolicismo

e ir além” e de que “cresço na medida em que olho o todo e aprofundo o singular”.

José Maria Vigil chamou os teólogos a olharem para o futuro, observando que mesmo a Teologia da Libertação clássica foi inclusivista. No entanto, “não podemos dizer que o que foi dito no passado possa ser dito do mesmo modo hoje”. Até porque naquela época nem sabíamos que hoje estaríamos debatendo os limites do exclusivismo sobre o diálogo inter-religioso. Assim, apoiou integralmente a visão de Faustino Teixeira.

tomada so site ALC